sábado, 16 de julho de 2016

O TEMPO


De que maneira nós sentimos a passagem do tempo?



 Nós percebemos o tempo só nas mudanças, vivemos na transição entre um momento e outro. Quando algum acontecimento ou notícia irrompe inesperadamente, sentimos como se estivéssemos caindo no precipício: todo o nosso equilíbrio, ou aquilo que pensávamos que fosse equilíbrio, é jogado por terra. É aí que percebemos o tempo de maneira mais forte. Diariamente, nós transitamos de um momento a outro sem ter uma percepção clara, é como se um piloto automático nos guiasse. Somente nessas situações de rompimento nos damos conta da vida e nos agarramos a ela.
O  tempo se torna uma opressão quando a liberdade acaba. O tempo se torna opressivo quando nossa esperança no futuro deixa de existir. Quando vivemos naquele tipo de infelicidade diária, começamos a pensar que o tempo nos oprime, mas na verdade o tempo é uma abertura, enquanto esperança. No breve tempo que possuímos, devemos sorrir para a vida.
Não podemos sair do tempo, mas o tempo só escraviza aquele que vive sem sonhar, sem ter esperança, isso é inegável, a convenção que temos do tempo é trágica, principalmente  porque todos nós morreremos um dia. Mas isso não deve gerar tristeza, faz parte da nossa vida terrena.
Eu penso que o tempo nunca está fora da mente. Se nossa mente não estiver ativa, não existe tempo. Eu penso que ele seja uma figura inquietante, que nos dá surpresas, descobertas. Não podemos pensar o tempo, agarrá-lo, ele só existe nessas fraturas da nossa vida. Não corresponde à nossa realidade, mas ao que sentimos. Aquele que não se submete a essa figura inquietante vive a automatização dos dias.
É um conceito abstrato. Existem as categorias da nostalgia, da consciência, do corpo, que são coisas eminentemente humanas. É desse ponto que eu parto.
Tudo o que envolve o homem está inserido nesse conjunto de coisas, nesse arquipélago do tempo. Para compreender alguma coisa do tempo, compreender essa quimera de formas inconstantes, você deve arriscar um pouco de tudo.
Abordar tantos temas não é perigoso, não pode acontecer de um deles ficar mal coberto? Na Idade Média e no Renascimento, a física, a filosofia, a medicina e a epistemologia não eram disciplinas separadas. Leonardo Da Vinci, por exemplo, era um grande filósofo, arquiteto, escultor, pintor e engenheiro. Com a modernidade, esses estudos foram divididos, o que causou uma perda terrível, porque eles deixaram de se arriscar, como se estivessem em mar aberto. Dante convidava a fazer isso (a arriscar), com a frase “Coloquei-me em mar aberto”.



O filósofo italiano Mauro Maldonato é especialista em um assunto que faz parte da vida de todos: o tempo. Tempo que, segundo o filósofo, só é sentido e apropriado pelas pessoas nas mudanças capazes de tirar o equilíbrio. E que, para quem não sabe sonhar e ter esperança, pode ser um estorvo: pode tiranizar.