De que maneira nós sentimos a passagem do tempo?
Nós percebemos o
tempo só nas mudanças, vivemos na transição entre um momento e outro. Quando
algum acontecimento ou notícia irrompe inesperadamente, sentimos como se estivéssemos
caindo no precipício: todo o nosso equilíbrio, ou aquilo que pensávamos que
fosse equilíbrio, é jogado por terra. É aí que percebemos o tempo de maneira
mais forte. Diariamente, nós transitamos de um momento a outro sem ter uma
percepção clara, é como se um piloto automático nos guiasse. Somente nessas
situações de rompimento nos damos conta da vida e nos agarramos a ela.
O tempo se torna uma
opressão quando a liberdade acaba. O tempo se torna opressivo quando nossa
esperança no futuro deixa de existir. Quando vivemos naquele tipo de
infelicidade diária, começamos a pensar que o tempo nos oprime, mas na verdade
o tempo é uma abertura, enquanto esperança. No breve tempo que possuímos,
devemos sorrir para a vida.
Não podemos sair do tempo, mas o tempo só escraviza aquele
que vive sem sonhar, sem ter esperança, isso é inegável, a convenção que temos
do tempo é trágica, principalmente porque
todos nós morreremos um dia. Mas isso não deve gerar tristeza, faz parte da
nossa vida terrena.
Eu penso que o tempo nunca está fora da mente. Se nossa
mente não estiver ativa, não existe tempo. Eu penso que ele seja uma figura
inquietante, que nos dá surpresas, descobertas. Não podemos pensar o tempo,
agarrá-lo, ele só existe nessas fraturas da nossa vida. Não corresponde à nossa
realidade, mas ao que sentimos. Aquele que não se submete a essa figura
inquietante vive a automatização dos dias.
É um conceito abstrato. Existem as categorias da nostalgia,
da consciência, do corpo, que são coisas eminentemente humanas. É desse ponto
que eu parto.
Tudo o que envolve o homem está inserido nesse conjunto de
coisas, nesse arquipélago do tempo. Para compreender alguma coisa do tempo,
compreender essa quimera de formas inconstantes, você deve arriscar um pouco de
tudo.
Abordar tantos temas não é perigoso, não pode acontecer de
um deles ficar mal coberto? Na Idade Média e no Renascimento, a física, a
filosofia, a medicina e a epistemologia não eram disciplinas separadas.
Leonardo Da Vinci, por exemplo, era um grande filósofo, arquiteto, escultor,
pintor e engenheiro. Com a modernidade, esses estudos foram divididos, o que
causou uma perda terrível, porque eles deixaram de se arriscar, como se
estivessem em mar aberto. Dante convidava a fazer isso (a arriscar), com a
frase “Coloquei-me em mar aberto”.
O filósofo italiano Mauro Maldonato é especialista em um
assunto que faz parte da vida de todos: o tempo. Tempo que, segundo o filósofo,
só é sentido e apropriado pelas pessoas nas mudanças capazes de tirar o
equilíbrio. E que, para quem não sabe sonhar e ter esperança, pode ser um
estorvo: pode tiranizar.
